Pesquisa histórica e desafios

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Construir uma pesquisa histórica, sem dúvida, não se apresenta como uma das tarefas mais fáceis, sobretudo, quando nos lembramos de que estamos lidando com acontecimentos sociais, manifestações culturais, hábitos e simbologias que se nos apresentam de maneira tão tênue que parecem na iminência de escapar de nossas mãos a cada momento. Além disso,  não devemos nos esquecer de que estamos lidando com relatos da experiência humana, com homens e vidas que jamais poderemos conhecer em sua complexidade.

Neste mundo de falsas certezas, temos como único porto seguro a convicção de que  nosso trabalho está em constante construção, o que nos faz lembrar um conto do grande escritor português José Saramago, chamado de “O Conto da Ilha Desconhecida”[1], no qual o autor apresenta a figura intrigante de um homem que um dia se propõe a encontrar, em algum lugar no mundo, onde todas as ilhas eram conhecidas, uma ilha desconhecida; sua inquietude o impedia de aceitar um mundo de ilhas conhecidas e verdades absolutas.

Cada um de nós historiadores, temos ou pelo menos deveríamos ter um pouco dessa inquietude, pois é exatamente ela que nos leva a ser constantes caçadores de ilhas desconhecidas, que muitas vezes podem estar a nossa frente se apresentando através de vestígios tão sutis que se tornam invisíveis para nós. Assim, o trabalho do historiador deve seguir em sentido oposto àquele que busca leis ou verdades inquestionáveis. Construir a intriga histórica[2] é principalmente perceber o inaudível som de um passado que nos chega através de mensagens incompletas deixadas em vestígios  que vão nos auxiliando na difícil tarefa de compreender um tempo que não é o nosso. Nesse sentido, ao entrarmos no campo complexo da pesquisa, devemos sempre estar atentos ao imprevisível, aos indícios mais sutis que muitas vezes nos passam despercebidos e que podem modificar totalmente os caminhos do trabalho, não esquecendo que um mesmo objeto pode levar-nos a várias conclusões; suas evidências e mesmo as suas não evidências devem nos falar mais do que o aparentemente óbvio.

Ao analisarmos qualquer registro, devemos observar que ele dá conta de uma prática social específica. É necessário se buscar sempre o estatuto social do documento, procurando dessa maneira desvendá-lo em seus aspectos constitutivos e criadores, analisar a que conjunções e redes de construções simbólicas ele esteve submetido em um determinado tempo histórico, percebê-lo no campo das possibilidades cotidianas de um dado circuito cultural, assim, o pesquisador deve estar atento aos detalhes de constituição desses rastros e percebê-los como  elementos de ligação entre um passado e suas apropriações  desencadeadas no presente.

Considerando tais elementos, compreendemos que cada sociedade elabora e constrói padrões próprios de comportamento que, cotidianamente, concedem explicação às suas condutas. Ao abordarmos qualquer aspecto sócio-cultural, devemos levar em consideração que esse nunca se apresenta isoladamente, pois o ponto de referência e constituição de qualquer acontecimento social é sempre fundando em seu próprio momento histórico, em suas problemáticas cotidianas. Ao tentarmos desvendar manifestações sociais passadas, é necessário estarmos atentos aos elementos de continuidade e descontinuidade dentro de suas organizações; estranharmos[3] o mundo novo que se nos apresenta e nele situarmo-nos; saber que estamos lidando com uma outra cultura, outros costumes, outros tempos. Temos que estranhar porque, dentro da pesquisa histórica, devemos sempre estar atentos ao sutil para não menosprezarmos os elementos aparentemente menosprezáveis, pois o que nos é estranho é quase sempre revelador de uma cultura que não é a nossa.


[1] Saramago, José. O Conto da ilha desconhecida. São Paulo: Companhia das Letras. 1998.

[2] Ao nos referirmos ao conceito de intriga histórica, utilizamos VEYNE, Paul, Como Se Escreve a História, Lisboa – Portugal, Edições 70, 1971.

[3] Aqui utilizamos do conceito de “estranhamento” discutido por GEERTZ, Clifford, A Interpretação das culturas, Rio de Janeiro, Editora Guanabara, p. 24. 1978.


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